Veja a intenção de voto no 2º turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil
Published 13 outubro 2026 Atualizado Há 3 horas
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reuniu milhares de apoiadores na avenida Paulista, em São Paulo, no domingo (11/10). Também houve atos a favor do presidente em Copacabana, no Rio de Janeiro, e em outras dezenas de cidades do Brasil.
Seu adversário nas urnas, o senador Flávio Bolsonaro (PL), passou o mesmo dia em um almoço de campanha na capital paulista, e seus aliados confirmaram, para o próximo domingo (18/10), um ato em seu apoio, também na avenida Paulista.
O senador aparece três pontos à frente do presidente nas intenções de voto para presidente no segundo turno, segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
Mas qual deve ser o real impacto dessas movimentações no dia 25 de outubro, quando os eleitores voltam às urnas para decidir a eleição?
A BBC News Brasil fez essa pergunta a cientistas políticos, que têm pontos tanto de concordância quanto de discordância entre si e apresentam justificativas para os seus argumentos.
Os especialistas concordam que é difícil transformar manifestações em votos, mas divergem sobre o efeito dos atos na abstenção
Ruas cheias podem 'furar bolhas'
Diretora do Instituto Brasil da universidade King's College London, Andreza Aruska diz que as manifestações "podem mudar as eleições, sim, pensando principalmente na abstenção e nos indecisos".
"Pode informar, animar, dar um sentido de urgência que pode levar as pessoas a sentirem a importância individual da sua presença", diz a professora.
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Segundo ela, os atos ainda assim teriam dificuldade de enfraquecer as chamadas bolhas sociais, fruto em grande parte dos algoritmos das redes. Isso por serem homogêneos e reunirem pessoas que pensam de maneira semelhance.
O professor Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, lembra que, ao fim do primeiro turno, a campanha de Lula foi criticada justamente pela falta de mobilização de sua base. No primeiro turno, Flávio teve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula — diferença de 1,87 ponto percentual.
"As críticas enfatizavam, de certa maneira, que o PT havia perdido a conexão com as ruas, sua base histórica, e com a juventude, então houve uma reconfiguração", diz Prando.
O ato de domingo teve forte presença de "fandoms" — grupos de fãs organizados nas redes, formados em sua maioria por jovens — e o apoio de ídolos da geração Z, como o cantor Jão.
A professora Maria do Socorro Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), tem avaliação similar.
Ela vê potencial para reduzir a abstenção — que no primeiro turno chegou a 33,4 milhões de pessoas (21,08% do eleitorado), o maior nível desde 1998 — e também os votos brancos e nulos, que somaram 4,77%.
"No segundo turno, o comparecimento é decisivo. Manifestações volumosas mantêm o clima eleitoral aquecido, incentivando o eleitor desmotivado", afirma.
"Uma rua cheia passa a percepção de que determinado candidato tem fôlego e viabilidade de virada ou consolidação, o que pode atrair apoios de lideranças políticas regionais neutras."
E qual é o impacto dos atos nas redes sociais?
Partindo da ideia suscitada pelos pesquisadores de que as manifestações nas ruas possam produzir engajamento virtual — a partir da geração de fotos e vídeos virais —, a BBC News Brasil apurou o engajamento de Lula e Flávio nas redes sociais.
O levantamento foi feito a partir do Social Blade, ferramenta amplamente utilizada por profissionais de marketing para acompanhar performances de usuários nas redes sociais.
Entre o primeiro turno (4/10) e esta terça-feira (13/10), Lula viu seu número de seguidores no Instagram aumentar em 8,18%, passando de 15,8 para 17,1 milhões; já Flávio viu seus seguidores crescerem 9,36%, indo de 12,7 para 13,9 milhões.
No mesmo intervalo, os inscritos de Lula no YouTube cresceram 3,45%, e os de Flávio, 7,14%. No TikTok, o presidente viu sua quantidade de seguidores ter uma alta de 3,39%, enquanto a alta do senador foi de 4,17%.
No Facebook, como não há seguidores, o Social Blade informa a quantidade de curtidas nas páginas de cada um: Lula registrou um aumento de 4,65%, enquanto Flávio viu um crescimento de 12,99%.
Apesar de Flávio ter crescimentos superiores a Lula, quando se olha para um recorte comparando sábado (10/10) e segunda-feira (12/10) — ou seja, um dia antes e um dia depois das manifestações —, o presidente teve altas superiores às do senador na maior parte das redes.
Nesse intervalo, Lula teve um crescimento de 2,01% no número de seguidores no Instagram, ante 1,03% de Flávio; no YouTube, os inscritos do presidente aumentaram 1,12%, ante 0,67% do senador; no TikTok, não houve alterações expressivas; no Facebook, por fim, quem levou a melhor foi Flávio, que teve o crescimento de 1,09% no número de curtidas de sua página, enquanto Lula viu uma alta de 0,90%.
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Já um levantamento da Zeeng, plataforma de monitoramento de redes sociais, analisou 121 posts publicados pelos perfis dos dois candidatos no Instagram, no YouTube e no TikTok entre 10 e 12 de outubro.
Os dados correspondem ao que as plataformas exibem publicamente, o que inclui alcance orgânico e impulsionado, explica o analista Edu Prange, CEO da Zeeng.
Cada rede é medida de um jeito: as interações no Instagram somam curtidas e comentários; já no YouTube e no TikTok, a soma é feita pelo número de visualizações. Por isso, os números de uma rede não podem ser somados aos de outra. Posts de outros perfis, como os do PT e do PL, ficaram de fora.
No Instagram, Lula teve 11,1 milhões de interações no sábado, 10 milhões no domingo (dia do ato) e 8,9 milhões na segunda. Seu volume, portanto, caiu a cada dia. Flávio teve 3,5 milhões no sábado, 2,2 milhões no domingo e 4,1 milhões na segunda.
No YouTube, as visualizações dos dois subiram no domingo em relação ao sábado: as de Lula passaram de 1,78 milhão para 2,01 milhões (alta de 13%), e as de Flávio, de 599 mil para 964 mil (alta de 61%). Boa parte desses números vem de transmissões ao vivo, que também aconteceram em outros dias de campanha.
No TikTok, os volumes são bem menores. As visualizações de Lula caíram a cada dia (233 mil, 164 mil e 87 mil), enquanto as de Flávio oscilaram, mas em geral foram menores. Ele teve 52 mil, 67 mil e 12,5 mil visualizações em cada um dos dias.
Votos já parecem cristalizados, dizem especialistas
Os cientistas políticos ouvidos pela BBC dizem acreditar que a ideia de "virar votos" é muito difícil em uma sociedade polarizada e, nas palavras de Braga, diante de um "cenário de cristalização".
Um indicativo é a migração dos eleitores dos candidatos eliminados no primeiro turno.
Na primeira pesquisa Datafolha do segundo turno, divulgada na última quinta-feira (8/10), 46% dos eleitores de Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) disseram que votarão em Flávio, 32% em Lula e 15% em branco ou nulo.
No total, o levantamento mostrou Flávio com 52% e Lula com 48% dos votos válidos, um empate técnico no limite da margem de erro, de dois pontos percentuais.
O professor Alberto Carlos de Almeida, autor de A Cabeça do Brasileiro e A Cabeça do Eleitor, acrescenta que as manifestações, embora reúnam centenas de milhares de pessoas, podem ser vistas como "tentativas de persuasão muito individuais".
"Entre as pessoas que vão a manifestações do Lula, cria-se um clima de vitória do Lula; mas existem as manifestações de Flávio, e entre quem vai nelas também cria-se um clima de vitória de Flávio. É clima contra clima", diz.
Para ele, a persuasão é possível, mas tende a funcionar melhor em ambientes menores, entre pessoas que já se conhecem. "Por isso é muito difícil virar voto. Tem que ser caso a caso, com perfil específico de interlocutor e com argumento muito específico."
O que mostram as eleições de 2018 e 2022
As duas últimas eleições presidenciais reforçam a cautela necessária à análise.
Em 2018, o movimento #EleNão levou milhares de mulheres às ruas contra Jair Bolsonaro, em uma disputa marcada, lembra Rodrigo Prando, pelo atentado a faca sofrido pelo candidato em Juiz de Fora (MG), pelo antipetismo ligado à Lava Jato e ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, além da rejeição ao governo de Michel Temer.
Naquele ano, o ato do #EleNão ocorrido no dia 29 de setembro, às vésperas do primeiro turno em 7 de outubro, foi considerada a maior manifestação de mulheres da história do país. Bolsonaro liderava as pesquisas de intenção de voto naquele momento, com 28%.
Desde o início da campanha, o ex-presidente teve trajetória de crescimento. Nas pesquisas do Ibope, tinha 20% no final de agosto, foi para 22% e, então, para 26%.
Mesmo com as manifestações, ele terminou o primeiro turno com 46,03% dos votos válidos, 17 pontos percentuais acima de Fernando Haddad (PT), que obteve 29,3%.
Para o cientista político, esse cenário de "desejo enorme de mudança" favoreceu Bolsonaro nas eleições de 2018.
"Naquele momento, a gente chamava Bolsonaro até de candidato Teflon — nada colava nele. Mesmo com o movimento do #EleNão, ele continuava fazendo afirmações misóginas, machistas e preconceituosas", lembra Prando. "Então, manifestações a favor ou contra não foram determinantes."
Em 2022, a eleição foi decidida por 50,90% a 49,10% em favor de Lula, em meio a mobilizações dos dois lados, como os atos de 7 de Setembro convocados por Bolsonaro.
Para Braga, o eleitor pendular se guiou menos pela quantidade de pessoas reunidas em uma avenida do que pelo preço dos alimentos, pela inflação e pelos programas de auxílio.
"Não são as manifestações efetivamente ou as ruas cheias que determinam o resultado eleitoral", afirma Prando, para quem os atos podem, porém, mostrar força política e mudar a percepção sobre a viabilidade de uma candidatura.
E o que pode acontecer com os próximos atos?
Após o sucesso da manifestação pró-Lula na avenida Paulista, Flávio convocou um ato de apoiadores para o mesmo local no próximo domingo (18/10).
A estratégia é fazer um "bloquinho" na data para tentar uma virada na capital paulista. No primeiro turno, Lula venceu na cidade, com 46,58% contra 42,13% do candidato do PL. A diferença entre os dois foi de 291.602 votos.
Para Braga, um ato de porte semelhante no próximo domingo poderia reduzir a vantagem de Lula, mas não necessariamente alteraria a disputa pelo eleitor indeciso.
"Se a candidatura oposicionista realizar uma mobilização proporcionalmente equivalente, ela anula o efeito psicológico e de imagem da vantagem do adversário nas ruas", diz.
Prando considera provável que Flávio também leve muita gente às ruas, o que seria compatível com um país polarizado. Nesse cenário, afirma, haveria uma "guerra de números" sobre quem é capaz de mobilizar mais gente.
"Não sei se chega a neutralizar o ato de Lula, mas mostra que ele também tem apoio. Ele não teria saído à frente no primeiro turno se não tivesse apoio. Agora a questão é: desses que votam, quantos estão dispostos a ir às ruas?", questiona.
A dimensão dos atos, porém, não mostra quantos participantes estão indecisos, quantos poderiam mudar de voto ou quantos irão às urnas.
Para medir os efeitos eleitorais, ele diz, será preciso observar as pesquisas e a repercussão entre eleitores que não estão diretamente envolvidos nas campanhas. "É preciso analisar caso a caso, e não são as manifestações efetivamente ou as ruas cheias que determinam o resultado eleitoral."
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