PARIS — Pouco depois de o presidente da França, Emmanuel Macron, se dirigir a um país traumatizado após os distúrbios que incendiaram cidades em 17 de outubro, seu ex-primeiro-ministro e aspirante a sucessor, Édouard Philippe, respondeu ao antigo chefe.
“Nosso país precisa ser comandado”, escreveu Philippe, repreendendo Macron pelo que classificou como uma falha em restaurar a ordem, proteger comerciantes de saqueadores e dialogar com estudantes secundaristas que participavam dos protestos.
Para Philippe, principal candidato presidencial do encolhido centro político francês, não foi a primeira divergência pública com Macron. Mas seu tom moderado sugeria mais tristeza do que raiva. A mensagem quase se perdeu em meio à crescente polarização, evidenciando como a turbulência vem remodelando a política francesa: figuras mais radicais estão deixando os centristas à margem.
Nenhum candidato importante perdeu tanto apoio nas pesquisas desde o início dos protestos, no mês passado, quanto Philippe. Ele recuou cerca de dois pontos percentuais e agora aparece entre 13% e 15% das intenções de voto. Está atrás do candidato de extrema esquerda, Jean-Luc Mélenchon, e segue bem distante da líder da extrema direita, Marine Le Pen, apoiada por cerca de um terço dos entrevistados na maioria dos levantamentos.
Mantido esse cenário, Philippe, de 55 anos, não avançaria para o segundo turno do sistema eleitoral francês, que começa em abril. Isso deixaria os eleitores diante de uma disputa entre Le Pen e Mélenchon, confronto que ela provavelmente venceria.
“A política está ficando mais polarizada, com o movimento estudantil e as acusações de violência policial”, disse Philippe Marlière, especialista em política francesa da University College London. “Os dois extremos têm seu próprio repertório para lidar com isso. A direita moderada está sendo comprimida entre essas duas forças”, afirmou. “Eles estão sendo sufocados. Não há espaço para que sejam ouvidos.”
Philippe integra um grupo cada vez mais pressionado de políticos centristas na Europa. A insatisfação com o aumento do custo de vida, economias estagnadas e perspectivas limitadas para os jovens impulsionou partidos populistas de extrema direita e extrema esquerda. O fenômeno tem dificultado a vida de líderes moderados como Friedrich Merz, na Alemanha; Keir Starmer, ex-primeiro-ministro britânico; e o próprio Macron.
Um dia após os distúrbios, Le Pen alertou para uma “profunda crise de confiança e autoridade”. Sentada diante de uma bandeira francesa, em um vídeo que parecia apresentá-la como “presidente em espera”, ela buscou reforçar sua imagem. Já Mélenchon atacou o governo pela condução dos protestos, acusando-o de agir com “violência cega”.
Philippe, prefeito da cidade portuária de Le Havre, tentou adotar um discurso de defesa da lei e da ordem, mas de forma menos agressiva. Ele se reuniu com comerciantes em Paris que tiveram seus estabelecimentos saqueados e vandalizados e acompanhou patrulhas policiais em Charleville-Mézières, no leste da França.
Em entrevista à revista conservadora Le Point nesta semana, Philippe também buscou reforçar suas credenciais junto à direita. Segundo ele, jovens de origem imigrante estavam sobrerrepresentados entre os manifestantes envolvidos nos distúrbios, uma afirmação que não foi corroborada pelo governo. Ele classificou a situação como um “fracasso da integração em nosso país” e prometeu reduzir pela metade o número de imigrantes na França ao longo dos próximos cinco anos.
Aliados de Philippe reconhecem que o clima político atual não favorece um político sensato de centro-direita, conhecido principalmente por ter servido como primeiro-ministro de Macron durante os três primeiros anos de seu mandato, especialmente durante a pandemia de Covid-19.
“Existe um antes e um depois de 17 de outubro”, afirmou Arnaud Péricard, porta-voz do partido Horizons, de Philippe. “É um momento muito complicado, em que muitos eleitores estão perdendo suas referências.”
Philippe também passou a enfrentar questionamentos relacionados a uma investigação sobre desvio de recursos públicos envolvendo a prefeitura de Le Havre. Na quinta-feira, seu advogado confirmou uma informação divulgada pela AFP segundo a qual Philippe recebeu o status de “testemunha assistida” no caso. A condição não o inocenta, mas indica que, por ora, não há provas suficientes para formalizar uma acusação.
Péricard afirmou que a campanha de Philippe vê o desenvolvimento como “muito positivo” e acrescentou: “Esse assunto agora está para trás”.
Por enquanto, a posição de Philippe parece relativamente segura, em parte porque o centro político francês está fragmentado. Seu principal rival no centro-direita, Gabriel Attal, também viu seus números nas pesquisas recuarem após os protestos. Já Bruno Retailleau, representante de uma linha mais dura, enfrenta concorrência do prefeito de Cannes, David Lisnard, outro nome conservador que ganhou destaque nas redes sociais.
Na quarta-feira, Attal defendeu a realização de uma eleição primária para definir qual candidato centrista deveria enfrentar a extrema direita e a extrema esquerda.
Na centro-esquerda, Raphaël Glucksmann, deputado do Parlamento Europeu, também registrou uma leve melhora nas pesquisas recentemente, embora analistas questionem a durabilidade desse avanço. Muitos aguardam para ver se François Hollande, ex-presidente socialista, entrará na disputa no início do próximo ano.
Parte do eleitorado francês sonha com uma nova figura capaz de sacudir a corrida presidencial, como Macron fez em 2017, quando concorreu aos 39 anos como agente de renovação política. O ministro da Economia da França, Roland Lescure, afirmou nesta semana acreditar que a maioria dos franceses votaria em um candidato moderado, caso o nome certo surgisse.
“Veremos até janeiro ou fevereiro se alguém consegue emergir, ou talvez duas pessoas consigam emergir”, disse Lescure a jornalistas, referindo-se a uma figura capaz de unir os moderados. “Ainda existe uma maioria silenciosa que demanda uma representação, algo que ainda não conseguimos oferecer.”
Analistas políticos, porém, mostram-se céticos quanto ao surgimento de um “salvador” de última hora, em parte devido à dificuldade de montar uma campanha competitiva em tão pouco tempo. Mesmo antes da recente onda de protestos, a polarização da política francesa já tornava improvável uma coalizão centrista semelhante à que Macron reuniu em 2017.
“A força dele está em ter conseguido consolidar uma base eleitoral e criar uma base que não existia antes dele”, afirmou Raphaël Llorca, analista da Fundação Jean-Jaurès, grupo de pesquisa de centro-esquerda sediado em Paris. “No fundo, não seria este o fim do macronismo, no sentido de que cada um de seus eleitores está voltando para sua própria casa política?”
c.2026 The New York Times Company
