Presidente mostra maior desenvoltura e aposta nas entregas de seus governos, enquanto senador modera o tom e apresenta propostas semelhantes às defendidas pelo adversário; confronto termina marcado por troca de acusações
Debate da Globo: encontro mais civilizado mostrou a busca pelo indeciso dos dois candidatos ( Globo/ Manoella Mello/Divulgação)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 24 de outubro de 2026 às 00h31.
Última atualização em 24 de outubro de 2026 às 01h30.
O debate da TV Globo entre Lula e Flávio Bolsonaro, nesta sexta-feira, 23, mostrou mudanças de postura dos dois candidatos em relação ao confronto da Band. O presidente concentrou suas intervenções nas políticas públicas de seus governos, enquanto o senador apresentou mais propostas, algumas semelhantes a medidas já adotadas ou defendidas pela gestão petista. Apesar do espaço dedicado aos programas de governo, o encontro também foi marcado por embates pessoais e acusações.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegaram ao último debate das eleições de 2026, realizado pela TV Globo nesta sexta-feira, 23, com mudanças de postura em relação ao confronto da Band, mas sem cometer erros que alterassem significativamente a dinâmica da disputa.
Lula mostrou uma postura que reflete a continuidade da recuperação de sua campanha, impulsionada pela mobilização da militância petista, enquanto Flávio manteve a vantagem construída no primeiro turno, quando terminou à frente do presidente, com uma atitude diferente do debate anterior para mostrar sobriedade.
A mudança ficou evidente desde os primeiros minutos. Lula começou o encontro cumprimentando o público e apresentou respostas mais organizadas sobre políticas públicas, em contraste com o nervosismo demonstrado na abertura do debate anterior.
Flávio, por sua vez, apareceu de gravata, adotou uma postura mais formal e procurou reduzir o tom agressivo que havia marcado sua participação na Band.
A dois dias da votação, o confronto ocorreu em um cenário de disputa acirrada, com pesquisas mostrando empate técnico entre os candidatos e vantagem numérica do senador em parte dos levantamentos.
Apesar das diferenças na apresentação, nenhum dos dois protagonizou um episódio que parece ser capaz de se impor como o principal fato negativo da noite. O debate, assim, preservou as condições de uma eleição marcada pela pequena distância entre os adversários.
A preparação do senador contou com a participação do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que participou de treinamentos para o confronto. Em determinados momentos, a apresentação mais técnica, com referências a números e políticas públicas, lembrou o estilo adotado pelo aliado. O senador também administrou melhor o seu tempo que o adversário.
No debate da Band, um dos principais assessores do candidato do PL foi o influenciador Pablo Marçal, conhecido por uma postura mais combativa e energética.
A nova postura, porém, não eliminou os momentos de irritação. Flávio elevou o tom em algumas respostas a Lula e demonstrou incômodo com intervenções do mediador César Tralli sobre o controle do tempo.
Lula também não abandonou os ataques ao adversário, mas encontrou mais espaço para tratar de programas de governo. O presidente recorreu a obras, investimentos e políticas sociais implementadas em seus mandatos para responder às críticas e questionar as propostas do senador. Lula, porém, pareceu não entender a dinâmica do debate ao quase não utilizar, por mais de uma oportunidade, o tempo dedicado para falar.
Em um dos momentos mais tensos do encontro, Lula acusou Flávio de chamá-lo de 9 dedos. O senador pediu desculpas na sequência.
O caso da atuação de Flávio na defesa de um policial militar acusado de envolvimento na morte de Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, também foi tema de embate. A mãe da criança esteve presente no encontro.
Flávio critica a economia, mas repete propostas de Lula
Flávio manteve o aumento do custo de vida como um dos principais argumentos contra o governo. Assim como no primeiro turno, o senador questionou os preços dos alimentos, os juros elevados e o endividamento das famílias, além de cobrar do presidente resultados de promessas feitas na campanha de 2022.
O discurso econômico foi acompanhado, porém, de propostas que se aproximam de medidas já adotadas ou defendidas pelo governo petista.
O senador prometeu preservar a política de valorização do salário mínimo e das aposentadorias, reajustar o Bolsa Família e permitir que beneficiários continuem recebendo o auxílio por um período após conseguirem emprego com carteira assinada. Essa última possibilidade já existe nas regras do programa social.
A semelhança ficou ainda mais clara na discussão sobre o endividamento. Flávio propôs utilizar a Caixa Econômica Federal para comprar dívidas dos brasileiros, enquanto Lula afirmou que o governo já encaminhou uma iniciativa semelhante ao Senado, associada ao Desenrola 3.
Nesse ponto, a diferença esteve principalmente no diagnóstico apresentado por cada candidato. Flávio atribuiu o endividamento e a perda do poder de compra à condução econômica do governo. Lula, por sua vez, argumentou que parte das soluções defendidas pelo adversário já está na agenda de sua administração.
A aproximação das propostas também expôs uma questão sobre a política fiscal que seria adotada pelo senador em um eventual governo.
Flávio se apresenta como uma alternativa à condução econômica de Lula, critica o aumento dos gastos públicos e defende maior responsabilidade fiscal. Ao mesmo tempo, promete preservar mecanismos de valorização da renda, ampliar benefícios e criar medidas de alívio financeiro para as famílias.
Isso não significa que os programas econômicos sejam iguais. O senador defendeu a autonomia do Banco Central, criticou a política de gastos do governo e apresentou uma visão diferente sobre as causas da inflação e dos juros elevados. Mas, nas medidas diretamente voltadas ao orçamento das famílias, a distância entre os discursos foi menor do que a confrontação política sugeria.
Lula melhora apresentação, mas concentra discurso no passado
Do outro lado, Lula utilizou boa parte do debate para defender o histórico de seus governos e responder às críticas sobre a situação econômica.
O presidente mostrou maior desenvoltura ao falar de infraestrutura, salário mínimo, saúde e programas sociais. Em diferentes momentos, apresentou políticas já implementadas para sustentar suas respostas e confrontar o adversário sobre o conhecimento de medidas em vigor.
Na discussão sobre infraestrutura, destacou investimentos em rodovias, ferrovias e hidrovias. Também citou a instalação da montadora chinesa BYD em Camaçari, na Bahia, no antigo complexo industrial da Ford, para defender a política de atração de investimentos ao Nordeste.
Ao tratar da saúde, defendeu o Sistema Único de Saúde (SUS) e questionou Flávio sobre declarações de um nome indicado pelo senador para comandar o Ministério da Saúde. Na economia, voltou a destacar a política de reajuste real do salário mínimo e os programas de renegociação de dívidas.
A experiência administrativa deu ao presidente exemplos concretos para responder às perguntas. Ao mesmo tempo, a ênfase nas realizações deixou menos espaço para explicar o que pretende entregar em um novo mandato.
Lula repetiu em diferentes momentos que pretende ampliar os programas existentes e fazer mais do que já foi realizado. Mas, em parte das respostas, deu maior atenção à comparação entre seus governos e os de seus antecessores do que ao detalhamento de novas propostas.
A escolha também marcou uma diferença na forma como os candidatos apresentaram seus projetos. Lula recorreu ao que já fez para defender a continuidade de suas políticas. Flávio buscou se apresentar como alternativa ao governo, embora tenha defendido medidas semelhantes em temas importantes para o eleitorado.
Ataques pessoais ganham espaço após discussão de propostas
A tentativa de concentrar o confronto em políticas públicas não impediu a troca de ataques pessoais.
No segundo bloco, Lula cobrou explicações de Flávio pelo uso da expressão "nove dedos" para se referir ao presidente. O senador pediu desculpas na sequência. Lula também chamou o adversário de "miliciano" e fez críticas à sua trajetória política.
Um dos momentos de maior tensão ocorreu durante a discussão sobre segurança pública. Flávio acusou o governo petista de não combater adequadamente as facções criminosas. Lula respondeu questionando a atuação do senador na defesa de um policial militar acusado de envolvimento na morte de Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, atingida por um tiro de fuzil durante uma operação policial em Niterói, no Rio de Janeiro, em 2021.
A mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, estava na plateia da Globo, entre os convidados da campanha de Lula. Ao responder ao presidente, Flávio manifestou solidariedade à família, mas confundiu o nome da mãe com o da filha.
O senador integrou a defesa do policial acusado e assinou, em 2024, um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar impedir o julgamento pelo Tribunal do Júri. O pedido foi rejeitado. O policial nega responsabilidade pelo disparo, e o processo ainda não tinha decisão definitiva.
Apesar de colocar o adversário contra a parede, o petista se enrolou ao defender medidas para segurança pública e, em uma construção mal feita, disse em "acabar com a polícia", frase utilizada no bloco seguinte por Flávio para questionar Lula.
Último bloco recupera clima do debate da Band
A mudança de postura perdeu força no quarto bloco, quando os candidatos tiveram oito minutos cada para discutir livremente.
Durante os 16 minutos, Lula e Flávio concentraram suas intervenções em acusações envolvendo o adversário e pessoas próximas, com pouco espaço para novas propostas.
O presidente trouxe à discussão o caso do atacante Richarlison, do Tottenham e da seleção brasileira, que disputa direitos sobre um imóvel em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. A controvérsia envolve empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. O senador nega participação na negociação, enquanto Tomaz sustenta que a aquisição dos direitos sobre o imóvel ocorreu de forma legal.
O confronto também avançou para o caso do Banco Master. Flávio questionou Lula sobre um suposto uísque recebido de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira.
Lula, por sua vez, cobrou explicações sobre os recursos destinados ao filme Dark Horse, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro que recebeu financiamento associado a Vorcaro. Flávio já havia confirmado participação na busca de recursos para o projeto, mas negou a negociação de contrapartidas.
A dois dias da votação, o debate da Globo mostrou dois candidatos que buscaram corrigir tropeços anteriores, mas preservaram as principais linhas de suas campanhas.
O último confronto mostrou diferenças de comunicação e aproximações de propsotas que nem sempre ficaram evidentes nos ataques. Resta saber qual peso essas diferenças terão na decisão dos eleitores no domingo, 25.
Mais de Brasil
Lula e o PT votaram contra a Constituição de 1988? Entenda a decisão citada por Flávio em debate
Episódio citado por Flávio Bolsonaro no debate da Globo envolve a rejeição ao texto final, que os constituintes petistas assinaram na promulgação
Como Lula perdeu um dedo? Entenda o acidente que marcou a vida do presidente
A perda aconteceu em 1964, num acidente com uma prensa mecânica, quando ele trabalhava como mecânico na Fábrica Independência
Debate da Globo: com menos ataques, Lula e Flávio discutem propostas e disputam legado
No último confronto antes do segundo turno, candidatos falaram sobre infraestrutura, salário mínimo, transporte público e investimentos regionais. Os ataques ficaram mais para o último bloco
Pesquisas para presidente hoje: quem está na frente nos levantamentos desta sexta-feira?
O senador Flávio Bolsonaro segue na liderança na corrida presidencial. O candidato do PL aparece com vantagem em 4 das principais pesquisas divulgadas
