h1
Cultura· Folha Ilustrada

'Overman' leva humor ácido de Laerte dos quadrinhos para as telas de cinema

"Todo o desejo dele é virar um filme da Marvel", diz Caco Ciocler sobre Overman, o super-herói criado por Laerte nas tiras da Folha em 1998. "Mas ele tem que lidar com problemas daqui, com supervilões que peidam." Leia mais (10/20/2026 - 10h00)

Folha Ilustrada · há cerca de 10 horas

'Overman' leva humor ácido de Laerte dos quadrinhos para as telas de cinema

"Todo o desejo dele é virar um filme da Marvel", diz Caco Ciocler sobre Overman, o super-herói criado por Laerte nas tiras da Folha em 1998. "Mas ele tem que lidar com problemas daqui, com supervilões que peidam."

Desempregado, endividado e morador de uma pensão, o personagem é a figura central de "Overman", comédia dirigida por Tomás Portella que estreia nesta quinta-feira.

O protagonista recebe uma proposta de emprego do governador, interpretado por Otávio Müller, para atuar na Secretaria de Segurança Pública. Aceita a oportunidade de recuperar o prestígio, mas precisa dividir o trabalho com Pâmela, a Mulher Cachorro.

A eficiência da nova parceira de Overman e a atenção que ela recebe agravam a insegurança de um homem que já não consegue administrar a própria vida.

A adaptação mantém uma contradição do personagem de Laerte: Overman tem poderes para salvar outras pessoas, mas não resolve seus problemas mais comuns. Para os realizadores, o desafio foi fazer desse sujeito o protagonista de um longa-metragem sem transformá-lo em uma versão nacional dos heróis de Hollywood.

"É um cara que é super inseguro, mas fica fingindo o tempo inteiro que é super seguro", afirma Portella. O diretor vê no personagem um exagero das dificuldades masculinas de lidar com as regras sociais. Também identifica uma sátira ao próprio país: alguém com grande potencial que acaba empregando suas forças de maneira equivocada, às vezes contra si mesmo.

O projeto é da produtora Iafa Britz, da Migdal Filmes. "Tem como grande inimigo a burocracia, tem como grande inimigo uma certa preguiça, a lei do menor esforço", diz Britz. "E, ao mesmo tempo, é adorável, porque ele é muito transparente."

Segundo Britz, Laerte participou de momentos decisivos, como a leitura de um tratamento do roteiro, mas preferiu manter uma atuação discreta.

O humor, diz o diretor, continua baseado na incapacidade de Overman de compreender as próprias atitudes. Ele se vê como herói exemplar, mas frequentemente se mostra preguiçoso e arrogante.

Já o humor político, acrescenta Portella, também procura seguir Laerte. O filme faz piadas tanto com a direita e o capitalismo quanto com a esquerda.

Para Ciocler, o problema era dar existência física a um personagem que até então se expressava em desenhos. "A tirinha não tem voz, não tem nariz. Eu tenho um baita de um nariz", diz. O ator precisou encontrar o tom de voz e os movimentos adequados a um corpo exageradamente musculoso, moldado por um figurino de enchimentos.

Ciocler conta que, ao rever o longa, identifica cenas em que ainda procurava o personagem. Ele só encontrou o caminho quando percebeu que, como Overman, tentava corresponder a um modelo que não dominava. "Eu tô passando a mesma coisa que o personagem tá passando."

Foi quando decidiu incorporar a própria hesitação à interpretação. A insegurança deixou de ser apenas uma característica escrita no roteiro e passou a orientar a maneira como ele representava o herói.

Houve dificuldades práticas. A máscara original não funcionava como esperado, problema já relatado pelo ator à Folha durante as filmagens, em 2023. A equipe encontrou uma explicação dentro da história para substituí-la.

O traje musculoso também tornava as diárias desconfortáveis —era quente, precisava ser seco para não aparecer molhado de suor e levava tanto tempo para ser retirado que o ator evitava até beber água.

Se Overman já tinha dificuldades de convívio nos anos 1990, a presença de uma colega competente apresenta uma situação especialmente constrangedora. Interpretada por Karina Ramil, Pâmela trabalha, enfrenta os problemas e recebe o reconhecimento que ele gostaria de monopolizar.

"Ela não quer ensinar nada. Ela quer ali fazer o dela", afirma a atriz. "Não é uma competição." Para Ramil, a tentativa de tratar os personagens como pessoas, mesmo dentro do absurdo, foi decisiva para impedir que a adaptação se resumisse a uma sucessão de caricaturas.

A discussão sobre reconhecimento aparece de outra maneira na personagem Poline Pilsen, influenciadora digital interpretada por Maria Lucas. A atriz vê nas redes sociais uma continuação das questões de vaidade e exposição que Laerte já explorava antes do surgimento dessas plataformas.

"Somos todos 'over' de alguma forma", diz. Lucas, que faz seu primeiro longa-metragem, destaca ainda a presença de atores negros e de uma atriz trans em papéis de pessoas comuns, não de super-heróis.

Já Ésquilo, interpretado por Victor Lamoglia, dispensa a reverência que o protagonista procura nos outros. Dividindo um quarto na pensão, ele conhece o super-herói longe do espetáculo de suas façanhas. "Para a galera você é o Homem-Aranha, para mim você é o cara que mora aqui comigo", diz o ator, resumindo a perspectiva de seu personagem.

Os realizadores dizem ter buscado a lógica da comédia brasileira, em vez de reproduzir a escala dos filmes americanos. "A gente não tem US$ 250 milhões para fazer um filme", afirma Portella.

Para o diretor, disputar o público infantil dos grandes lançamentos de super-heróis com as mesmas ferramentas seria uma escolha sem sentido. O diferencial de "Overman" está no humor adulto, na crítica social e nas piadas escrachadas.

Britz, a produtora, espera atrair leitores de Laerte, fãs de quadrinhos e interessados num super-herói brasileiro. Ela recupera uma definição de Portella: "Quando Deadpool encontra Macunaíma".

A preocupação com o público levou a equipe a organizar sessões de teste com espectadores jovens durante a montagem. Segundo ela, foram convidados adolescentes e pessoas com menos de 20 anos, que responderam a formulários e discutiram o que funcionava.

Os comentários fizeram a produção repensar escolhas que poderiam agradar apenas aos próprios realizadores.

Ciocler gostaria que a história continuasse em outros filmes ou mesmo em uma série. Ele diz que o universo das tiras contém vilões que não couberam neste primeiro longa. Antes de pensar em novas aventuras, porém, espera que o público aceite um herói bem distante dos padrões americanos.

"Eu queria que as pessoas ficassem nesse lugar também de achar tosco e bom ao mesmo tempo", diz. "E rissem sem saber direito do que é que estão rindo."

Elenco Caco Ciocler, Otávio Müller, Karina Ramil, Victor Lamoglia, Raphael Logam, Marina Provenzzano, Maria Lucas, Caio Riscado e Isabele Riccart.

Produção Brasil, 2026. Comédia. 82 min. 16 anos.

Estreia nos cinemas na quinta-feira (22).

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

sua assinatura pode valer ainda mais

sua assinatura vale muito

Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/overman-leva-humor-acido-de-laerte-dos-quadrinhos-para-as-telas-de-cinema.shtml

Compartilhe

Link copiado

Fonte: Folha Ilustrada