Doutor em história, é autor de 'Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira' e 'Simonal: Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga'
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Foi lançada no dia 16 deste mês no Prime Video a série documental "Marília Mendonça: Sentimento Louco", da diretora Susanna Lira, uma homenagem à artista morta há cinco anos. O grande trunfo da produção é a grande quantidade de vídeos e áudios privados. Isso se deve ao fato de a família da cantora ter autorizado a série. Talvez por isso não espanta que a série fuja da política como o diabo da cruz.
Mas até quando se pode fugir do tema? Marília Mendonça criou o feminejo, ramo que abraçou o feminismo como estética na música sertaneja. No auge da carreira de Marília, feministas de rede social diziam que ela banalizava o movimento, enquanto acadêmicos e jornalistas se dividiam sobre a transformação da pauta feminista em mainstream comercial. Após sua trágica morte, as vozes dissonantes se calaram.
A série aborda genericamente as questões femininas no canto de Marília, mas evita a polêmica. Marília viveu numa época em que o feminismo estava em alta, entre os mandatos de Dilma, Temer e Bolsonaro. Assim, é lamentável que a série não avance no principal paradoxo musical do nosso tempo: o gênero mais popular do Brasil, frequentemente associado ao bolsonarismo e ao agronegócio, gestou uma cantora que se afeiçoou a pautas historicamente ligadas à esquerda.
O documentário não mostra, mas Marília participou do movimento "#EleNão" em 2018. Recebeu uma saraivada de críticas dos sertanejos e retirou o posicionamento. Sua recuada foi tão sentida que Caetano Veloso gravou um vídeo dizendo compreender a desistência, mas pedindo que ela fosse forte.
O documentário registra que Marília doou oxigênio aos hospitais de Manaus durante um dos períodos mais críticos da pandemia, de forma anônima. A atitude revela uma figura maiúscula. Mas também apequena a produção, incapaz de mostrar que a ação de Marília foi fruto do descaso assassino do governo bolsonarista.
A fuga do tema na série do Prime Video sobre Marília não está sozinha. Todas as recentes produções audiovisuais sertanejas evitam a política. Como pesquisador e autor de livro sobre o tema, já fui convidado a pesquisar para documentários e exposições sertanejos. A orientação é sempre taxativa: "Política não!" Fugindo de um tema tão importante, Susanna Lira fez uma série anódina, capaz de agradar apenas os fãs, e talvez aqueles que esqueceram a dimensão de Marília.
Espanta que uma diretora de filmes tão politizados —como "Torre das Donzelas" (2019) e "Gonzaguinha: da Maior Liberdade" (2026)— tenha abandonado sua arguta visão ao abordar o sertanejo. O primeiro filme documentou as companheiras de cela de Dilma Rousseff durante a sua vida na prisão na ditadura. O segundo documentou a trajetória do politizado Gonzaguinha, um dos arautos da resistência musical à ditadura. Em entrevista à CNN Susanna disse que "depois de Marília, não existem mais limites para as mulheres na música brasileira". A julgar pelas produções recentes, há um limite bem claro: é proibido abordar a política. Uma pena.
Lançado entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial, o documentário provoca uma reflexão: qual seria o posicionamento de Marília agora? Ela votaria em Lula? Ou tiraria o time de campo, como João Gomes? Rejeitaria ambos os candidatos? Ou apoiaria Flávio, como boa parte dos sertanejos?
Nesta semana, após um primeiro turno apático, os sertanejos caíram de cabeça na campanha. Terça passada mais de 30 cantores se reuniram com Flávio Bolsonaro na Fazenda Toca da Orca, em Nerópolis (GO), de propriedade do senador Wilder Morais (PL). Chamou a atenção que apenas um integrante de várias duplas compareceu: Zezé foi, Luciano, não; Marrone foi, Bruno, não; Rodolfo foi, Israel, não; Jorge foi, Mateus, não. Cauan foi, Cleber, não. Jader foi, Carlos, não. Marcelo foi, João Lucas não. Estariam as famílias sertanejas tão divididas quanto as famílias brasileiras? Murilo Huff, ex-namorado de Marília e pai de seu filho, esteve presente. Será que Marília iria?
Nenhuma artista do feminejo esteve lá: nem Maiara nem Maraísa, nem Simone, nem Simaria. Nem Lauana Prado. Nem Naiara Azevedo. A principal artista da atualidade, a cantora Ana Castela, também não deu as caras. Cantoras de gerações anteriores, como Roberta Miranda e Paula Fernandes, tampouco foram.
A ausência das mulheres no palanque e o silêncio do documentário mostram que a política continua sendo o maior tabu do sertanejo. Se jamais saberemos como Marília se posicionaria hoje, sua trajetória prova que tentar desvincular a arte da política do país é ignorar a própria força popular que a consagrou.
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