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Em 'Morro', Rodrigo García Saiz aborda a violência do narcotráfico com o silêncio

"Morro" é um filme para lembrar por que o cachorro ganhou o cargo de melhor amigo do homem . No segundo longa-metragem do diretor mexicano Rodrigo García Saiz, a relação entre um veterinário enlutado e o cachorro ferido de um chefe do crime local se torna um caminho para abordar

Folha Ilustrada · há cerca de 8 horas

Em 'Morro', Rodrigo García Saiz aborda a violência do narcotráfico com o silêncio

"Morro" é um filme para lembrar por que o cachorro ganhou o cargo de melhor amigo do homem. No segundo longa-metragem do diretor mexicano Rodrigo García Saiz, a relação entre um veterinário enlutado e o cachorro ferido de um chefe do crime local se torna um caminho para abordar os efeitos cotidianos da violência do narcotráfico no México.

O filme, agora na Mostra de Cinema de São Paulo, compete na categoria de novos diretores. No longa, Mateo, interpretado por Gustavo Sánchez Parra, tenta seguir após a morte do filho. Seu luto é vivido em silêncio. Aliás, o filme inteiro se passa assim, em silêncio. As conversas são escassas, enquanto os sons dos animais e da paisagem ao redor do veterinário ocupam boa parte da trilha sonora.

A história começa quando Morro é atingido por um tiro e homens ligados ao crime organizado procuram Mateo para exigir que ele trate o animal. Forçado a cuidar do cachorro, o veterinário estabelece com ele um vínculo que, sem depender de palavras, começa a alterar sua relação com o mundo.

"Queria contar algo com um animal", afirma Saiz. Para o diretor, a relação entre os dois personagens permite contrapor um ser que não julga nem tem preconceitos a um homem que deixou de acreditar nos outros humanos. Justifica também as cenas de ternura entre Mateo e outros animais, como coelhos, galinhas, vacas, um jacaré, um burro e um potro.

Para o filme, o diretor optou por gravar com um cachorro do campo, não adestrado, que Sánchez Parra levou para casa para criar um vínculo antes das filmagens.

"Uma das premissas do filme era: quem salva quem?", diz Saiz. Ao cuidar de Morro, Mateo também encontra uma possibilidade de reconstrução, ainda que não haja uma solução definitiva para seu luto, como uma segunda chance de zelar e amar algo em sua vida.

A violência, no entanto, não é tratada em primeiro plano. Embora o narcotráfico determine o ambiente em que a trama se desenvolve, o diretor evita fazer da brutalidade o centro da narrativa. Ela surge nos sons, em pessoas armadas e nas marcas no cotidiano dos personagens.

"Qualquer jornal que a gente abra, qualquer noticiário, já mostra uma sociedade tão pouco empática que não importa se morreu uma pessoa ou 50 em um confronto", afirma. Em vez de insistir nas imagens de agressão, o cineasta diz ter escolhido acompanhar aqueles que precisam continuar vivendo depois da violência.

"O filme é sobre o México, mas também é uma oportunidade de refletir um pouco sobre o que está acontecendo no mundo, com todas as guerras." O cineasta diz que queria mostrar pessoas que, mesmo diante de circunstâncias extremas, continuam procurando algum sinal de esperança.

Por isso, Saiz considera que fazer cinema é, por si só, um ato político. Não necessariamente no sentido da propaganda, mas como expressão da posição que um artista assume diante da vida. Em "Morro", essa postura se manifesta na recusa de transformar a violência em espetáculo e na defesa de valores que, segundo ele, têm perdido espaço nas sociedades.

"Não é com tiros que se combate, mas com ternura, empatia, amor e educação", afirma o diretor. Ele aproxima México e Brasil pelas desigualdades sociais e pelos problemas que assolam os dois países, e vê no cuidado entre Mateo e o cachorro uma metáfora para relações capazes de romper, ainda que momentaneamente, com a lógica da brutalidade.

Apesar das tentativas de escapar da violência, uma gangue rival aborda Mateo exigindo que ele entregue o cão, em uma forma de vingar as mortes feitas pela outra quadrilha. Mas esse não é o fim do filme.

Para o diretor, Morro é como sua pomba branca da esperança, que ama sem juízos e cura com toda a ternura de um bichinho. "Espero que todos nos tornemos mais animais e menos humanos."

Quando 17 de outubro, 14h | Cinesystem Belas Artes Frei Caneca 5 20 de outubro, 17h30 | CineSesc 22 de outubro, 19h | Cine Satyros Bijou 24 de outubro, 14h30 | Cinemateca Brasileira – Sala Oscarito

Elenco Gustavo Sánchez Parra, Ernesto Meléndez, Anna Díaz

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Fonte: Folha Ilustrada