Apartamento de cinema, obras de arte caríssimas e quadrilha atrás de dinheiro. A trama da série "Dom de Iludir", da Netflix, tem muitas semelhanças com um caso real que aconteceu no Rio de Janeiro, embora a plataforma de streaming não mencione o crime nos materiais de divulgação.
O episódio em questão foi um dos maiores escândalos da arte brasileira dos últimos anos e veio à tona em 2022. Uma idosa, colecionadora de arte, foi convencida por uma falsa cartomante a se desfazer de pinturas avaliadas na casa das dezenas de milhões de reais enquanto era mantida em cárcere privado pela própria filha. O prejuízo foi de R$ 725 milhões, segundo o Ministério Público.
De acordo com a polícia, a vidente teria visto que a filha da colecionadora estava doente e morreria em breve. A cartomante ofereceu, então, um tratamento espiritual em troca de dinheiro. Como a filha enfrentava problemas psicológicos desde a adolescência, a idosa acabou fazendo os pagamentos solicitados. Além das transferências, foram roubadas obras de arte e joias.
Na vida real, a colecionadora é Geneviève Boghici, e, na série, ela é vivida por Marieta Severo, que interpreta Lúcia Rossetti. A filha, Sabine Boghici, foi transportada para a tela pela atriz Alice Wegmann e se chama Maíra. A cartomante —Rosa Stanesco— virou uma curandeira no folhetim, tem nome de Irina e é o papel de Nanda Costta. Tanto na vida real quanto na série essa figura participava de uma quadrilha.
A Netflix gravou a série num apartamento de quatro andares e 3.900 metros quadrados com vista para o Pão de Açúcar, no bairro do Flamengo, lugar que também serviu de moradia à personagem vivida pela atriz Malu Galli na novela da Globo "Amor de Mãe". Após o lançamento, na última quarta-feira (28), as buscas pela série dispararam no Brasil, segundo dados do Google Trends.
Considerada uma das maiores coberturas do Brasil, a casa pertenceu à família Guinle, da aristocracia carioca, e foi posta à venda há três anos, pelo valor de R$ 59 milhões. Hoje, está avaliada entre R$ 50 milhões e R$ 54 milhões, segundo anúncios em sites de imobiliárias voltadas à altíssima renda.
Fora da ficção, a viúva e sua filha moravam num duplex num prédio de luxo na avenida Atlântica, em Copacabana, com vista para o mar. Nesse lugar, Geneviève Boghici teria sido mantida refém. Era ali também que ficava ao menos parte da sua coleção de arte, que ela construiu junto com o marido, Jean Boghici, um importante marchand morto em 2015, que na trama da Netflix é interpretado por Jonas Bloch.
No seriado, a reprodução de um quadro de Candido Portinari, "Mulher com Filho Morto", é tida como a fonte das convulsões e apagões da filha. Na vida real, a pintura a óleo, datada dos anos 1950, serviu como uma maquete preparatória para o mural que o artista fez para a sede das Nações Unidas, em Nova York. A tela foi exibida na terceira edição da Bienal de São Paulo, segundo dados do Projeto Portinari, responsável por catalogar a obra do artista. Também no crime investigado pela polícia carioca a cartomante havia dito para a idosa que suas obras estavam amaldiçoadas.
Segundo a Netflix, a coleção de arte no folhetim conta com outras reproduções autorizadas por herdeiros —duas obras de Victor Brecheret e quatro de Emiliano Di Cavalcanti. De Di Cavalcanti ganha destaque na ficção a tela "Samba", de 1925, que na vida real foi destruída num incêndio que consumiu parte da coleção de Jean Boghici. A série teve como consultor um galerista e leiloeiro com décadas de atuação no mercado de arte.
Na vida real, Sabine se casou com a falsa vidente, Rosa Stanesco, e elas adotaram um filho. Tanto Sabine quanto Rosa foram presas, mas só a primeira saiu da cadeia, com um "habeas corpus". Depois de solta, Sabine morreu ao cair de um prédio no Leblon, numa morte tratada como suicídio —ela teria sido induzida a se matar pelo genro, que foi preso. E aqui vai um "spoiler": na série, a filha não morre.
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