h1
Cultura· Folha Ilustrada

Belchior volta ao centro da MPB aos 80 anos com série e livros sobre a sua vida

Belchior faria 80 anos na última segunda-feira (26), se não tivesse morrido de aneurisma na aorta em 2017. Passou seus últimos dias vagando com a mulher sem lenço e sem documento pelo Sul do Brasil e Uruguai . Depois de perrengues que envolveram frio e fome, foi abraçado por bene

Folha Ilustrada · há cerca de 14 horas

Belchior volta ao centro da MPB aos 80 anos com série e livros sobre a sua vida

Doutor em história, é autor de 'Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira' e 'Simonal: Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga'

Recurso exclusivo para assinantes

Belchior faria 80 anos na última segunda-feira (26), se não tivesse morrido de aneurisma na aorta em 2017. Passou seus últimos dias vagando com a mulher sem lenço e sem documento pelo Sul do Brasil e Uruguai. Depois de perrengues que envolveram frio e fome, foi abraçado por benevolentes fãs, que o sustentaram sem grandes luxos.

No período final de sua vida, seu sofrimento despertou curiosidade. Voltou a ser ouvido por uma juventude que resgatou sua música. A morte, paradoxalmente, valorizou ainda mais seu passe. Caso curioso, embora não tão incomum, de artista que passa a ser mais valorizado após a morte.

Hoje, Belchior talvez seja o artista da MPB cuja morte mais tenha ressignificado sua obra. Ele paira ainda mais celebrado que um Raul Seixas, que também teve uma morte um tanto decadente e foi salvo do limbo da memória por fãs ardorosos.

O cearense também aparece mais celebrado que Wilson Simonal, cuja morte no ostracismo em 2000 animou documentaristas, cineastas e escritores a se debruçar sobre ele, inclusive este aqui. Publiquei o livro "Simonal: Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga" em 2011. Mas hoje Simonal parece despertar menos interesse nos jovens do que Belchior.

O resgate de Belchior ganha força no mundo do audiovisual, em que se destaca a Globoplay. Em 2022, o streaming da Globo lançou "Belchior: Apenas um Coração Selvagem", de Camilo Cavalcanti e Natália Dias.

Este ano o Globoplay lançou "Alucinação", série em quatro episódios, com qualidades e defeitos em igual proporção. Chama a atenção o bom elenco, com boas atuações e semelhanças físicas, especialmente os atores que representam Belchior em diferentes fases da vida. Por outro lado, a escalação da sempre doce Isabela Garcia para o papel de Edna, segunda mulher de Belchior, parece equivocada.

Todas as biografias de Belchior mostram uma mulher assertiva e direta, autoritária e mandona, sem papas na língua, tom que Isabela não consegue emular. Parece também um problema da direção, conduzida por Eduardo Albergaria, também roteirista, que falhou em transpor o livro "Apenas Um Rapaz Latino-Americano", de Jotabê Medeiros, para a tela.

O tom lento da série, quase sempre pretensioso, também torna a série biográfica de Belchior modorrenta, especialmente da metade pro final. A ausência de músicas, que não foram liberadas pela família, também cobrou seu preço.

O diretor tem na manga os direitos comprados para um novo filme sobre o cantor. Eduardo Albergaria irá filmar o livro "Viver É Melhor que Sonhar: Os Últimos Caminhos de Belchior", escrito por Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti.

Publicado em 2021, o livro de Fuscaldo e Bortoloti é sobre o período de "exílio" de Belchior. Os autores perambularam pelos mesmos caminhos do cearense, desde que largou o carro no aeroporto em Fortaleza até a morte do compositor no Rio Grande do Sul.

Produziram aquela que talvez seja a melhor obra sobre Belchior, um livro instigante e sagaz, que conta a história do cearense por meio de flashbacks. Um livro aparentemente despretensioso, mas por isso mesmo muito potente.

É com felicidade que recebo a notícia de que o livro de Chris Fuscaldo e Marcelo Bortolotti, que estava fora de catálogo, acaba de ganhar nova edição, editada em parceria das editoras Sonora e Garota FM Books.

Em "Viver É Melhor que Sonhar" conhecemos Belchior por meio de suas manias, de seus medos, de suas dores. Quiçá, nesta futura adaptação audiovisual, a falta de músicas não seja tão sentida. Resta saber se o novo filme de Eduardo Albergaria, ainda sem data para ser lançado, irá conseguir capturar a escrita da dupla de autores.

É até injusto se cobrar que um filme esteja à altura de um livro. São produtos diferentes. Se o novo filme conseguir uma pitada da qualidade do livro de Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti, já será uma grande produção. Nada mais merecido nesses 80 anos de Belchior.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

sua assinatura pode valer ainda mais

sua assinatura vale muito

Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/gustavo-alonso/2026/10/belchior-volta-ao-centro-da-mpb-aos-80-anos-com-serie-e-livros-sobre-a-sua-vida.shtml

Compartilhe

Link copiado

Fonte: Folha Ilustrada