Artistas buscam autorização para se apresentar. Ora estão no passado, como trovadores do século 19, ora estão no presente, entre músicos e políticos militantes. Eles são vividos pelos mesmos atores em ambos os cenários, e o filme nunca explica o porquê dessas idas e vindas no tempo.
Em "A Providência e a Guitarra", filme em cartaz na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo, importa menos a razão do que as sensações causadas pela arte. É ela, seja nos quadros de um pintor frustrado, seja na peça de um ator desrespeitado, que guia as personagens, embaralhando sonhos e dificuldades.
"O cinema é uma arte que permite furar o cartesianismo [filosofia que defende a razão como responsável pela verdade]. A vida nem sempre é lógica, então não vejo por que os filmes precisam ser", diz o cineasta João Nicolau, conhecido por explorar o realismo mágico em suas obras.
Em "Technoboss", de 2019, ele recorreu ao musical para narrar a trama de um sexagenário que, antes de se aposentar, precisa resolver pendências de sua empresa de sistemas de segurança.
Já no seu "A Espada e a Rosa", de 2010, um rapaz questiona limites da moral humana e amarras da sociedade portuguesa ao se juntar a um grupo de piratas.
Inspirado num conto homônimo de Robert Louis Stevenson, autor de "A Ilha do Tesouro", o filme mais recente de Nicolau bebe dessa fonte fantástica e foi pensado como um conjunto de aventuras.
Isso se reflete no tom espontâneo da produção. Apesar das revisões de roteiro e dos meses de ensaio, Nicolau diz definir seus enquadramentos na hora de gravar e estar aberto a improvisar com detalhes do espaço e da iluminação.
Quando vai para o passado, "A Providência e a Guitarra" diverte ao acompanhar, em tom lúdico, figuras inusitadas, como um casal de artistas que é expulso da hospedaria em que dormia e um comissário egoísta, que boicota um espetáculo num bar local.
Já no presente, numa atmosfera sóbria, há um sentimento de desencanto que paira sobre uma banda de artistas que brigam durante uma entrevista. Depois, a inesperada gravidez de uma das integrantes vai piorar a situação.
Os diálogos são caudalosos. Em alguns deles, a impressão é a de que há algo de brechtiano na forma como eles se dirigem diretamente ao espectador com seus dramas. Quando não estão nos palcos, os artistas falam uns com os outros, por exemplo, sobre os rumos da arte ou o descaso do Estado.
"O que me estimulou a trabalhar com o conto de Stevenson foi o prazer da linguagem. Tenho sempre prazer em ouvir e fazer meus atores viverem o texto", afirma o português. Nicolau lembra ainda o autor François Rabelais, segundo quem a imagem e o texto literário, ao levar o leitor à reflexão, podem se materializar num espaço e tempo específicos.
Em tela, a valorização da oralidade também determina a passagem do tempo. Em boa parte das cenas, as conversas são vagarosas, os personagens observam os arredores com cuidado e o avanço das horas do dia aparenta desobedecer às leis naturais.
Para o diretor, esse ritmo é uma resposta à aceleração da contemporaneidade, em que estímulos constantes circulam por plataformas digitais e a desatenção pauta o consumo de obras audiovisuais.
Daí, diz João Nicolau, é que nascem os que ele define como filmes didáticos, que subestimam a inteligência dos espectadores, principalmente ao tornar explícitas as suas discussões políticas.
"Nos últimos anos, houve uma grande colonização da política na arte. É claro que há filmes geniais sobre temas político-sociais, mas várias obras são supervalorizadas só por incluírem tais temas."
"Se estiver num hotel luxuoso e virar a câmera para um terreno em obras, não preciso dizer nada —já é um ato político. O cinema tem a vantagem de poder romper rapidamente algumas barreiras."
Quando Ter. (27), às 19h45, no Espaço Petrobras de Cinema; Qua. (28), às 14h, no Espaço Petrobras de Cinema; qui. (29), às 13h45, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca
Elenco Clara Riedenstein, Pedro Inês e Salvador Sobral
Tópicos relacionados
Leia tudo sobre o tema e siga:
sua assinatura pode valer ainda mais
sua assinatura vale muito
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/10/a-providencia-e-a-guitarra-une-passado-e-presente-para-exaltar-a-resiliencia-da-arte.shtml
