Jornalista e crítico de TV, autor de "Topa Tudo por Dinheiro". É mestre em sociologia pela USP
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Três semanas antes de conseguir o papel que mudou a sua vida, o de Chandler Bing na sitcom "Friends", Matthew Perry conta que rezou: "Por favor, Deus, me faça famoso. Você pode fazer o que quiser comigo, desde que me faça famoso". Quem leu a autobiografia "Amigos, Amores e Aquela Coisa Terrível", publicada há quatro anos, sabe que Deus ouviu o pedido de Perry.
O ator passou por mais de 65 desintoxicações ao longo da vida —a primeira quando tinha 26 anos. Conta que gastou mais de US$ 7 milhões tentando ficar sóbrio. "Fui a 6.000 reuniões do Alcoólicos Anônimos (não é exagero, mas um palpite aproximado). Já estive 15 vezes em clínicas de reabilitação. Fui internado em um hospital psiquiátrico, passei 30 anos fazendo terapia duas vezes por semana."
Em 2018, chegou bem perto da morte. Devido ao uso excessivo e prolongado de opioides, sofreu um rompimento do cólon. Ficou seis meses internado e sofreu 14 cirurgias.
O documentário "Aquele sobre Matthew Perry", dirigido por Mary Robertson, recém-lançado pela Netflix, traz poucas novidades em relação ao livro, que foi um best-seller nos Estados Unidos.
Em três episódios, o tributo ouve familiares e amigos do ator, mas não traz depoimentos dos outros cinco integrantes de "Friends". O quinteto teria declinado participar por não querer reviver a dor pela morte do colega diante das câmeras.
Uma das passagens mais tristes é a lembrança do encontro dos seis para a gravação de "Friends, a Reunião", exibido pela HBO Max em 2021. Ainda se recuperando das cirurgias, Perry parece 20 anos mais velho que os colegas.
"Aquele sobre Matthew Perry" acrescenta informações sobre a morte do ator, em outubro de 2023, por uso excessivo do anestésico cetamina. A Justiça americana condenou dois médicos, um assistente pessoal do ator e uma traficante pelo fornecimento do medicamento.
Documentários desse tipo, em forma de homenagem, são relativamente fáceis e pouco custosos de fazer, desde que haja bastante material de arquivo, como é o caso do tributo a Perry. E, para satisfação do fã que deseja se emocionar, cumpre o objetivo de lembrar a trajetória do ator, mesclando comédia e tragédia em boas doses.
Essa também é a intenção de "Marília Mendonça: Sentimento Louco", uma série documental em quatro episódios, dirigida por Susanna Lira, disponível no Prime Video. O lançamento coincide com os cinco anos da morte da cantora num acidente de avião, aos 26 anos, em 5 de novembro de 2021.
Marília é uma baita personagem, uma cantora que trouxe novidades ao universo sertanejo, em especial o protagonismo das mulheres nas canções, o chamado feminejo. A sua trajetória, tão espetacular quanto fulminante, é muito instrutiva, mas insuficiente para preencher quatro longos episódios.
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Os depoimentos de parentes e amigos reproduzem repetidamente os mesmos elogios genéricos. Conflitos entre parceiros de Marília são mencionados de forma superficial, como que a evitar constrangimentos. Também não se discute a fundo um tema que parece importante e aparece em muitos depoimentos —a questão da imagem corporal da artista. E a série ignora quase completamente o acidente que causou a sua morte.
Assim como a série sobre Matthew Perry, "Marília Mendonça: Sentimento Louco" é um programa mais preocupado em reiterar o que já se conhece do que em aprofundar aspectos mais complexos da carreira e da vida da artista. Os fãs não vão se decepcionar.
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