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Eleição no Brasil é a mais importante para o mundo fora dos EUA em 2026, diz Daron Acemoglu

A eleição presidencial brasileira é a mais importante fora dos Estados Unidos em 2026. Essa é a visão do prestigiado economista americano Daron Acemoglu, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston, nos Estados Unidos, e um dos laureados com o Prêmio do Ba

Folha · há cerca de 1 hora

Eleição no Brasil é a mais importante para o mundo fora dos EUA em 2026, diz Daron Acemoglu

A eleição presidencial brasileira é a mais importante fora dos Estados Unidos em 2026. Essa é a visão do prestigiado economista americano Daron Acemoglu, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston, nos Estados Unidos, e um dos laureados com o Prêmio do Banco Central da Suécia em Memória de Alfred Nobel —conhecido como Nobel de Economia.

"O Brasil é muito importante para a América Latina. Na verdade, se [a família] Bolsonaro retornar ao poder, será igual aos EUA que decidiram por um segundo mandato de Donald Trump", afirma o economista.

Em entrevista à BBC News Brasil, Acemoglu também expõe aquela que entende como a melhor alternativa à crise das democracias globais: o "liberalismo da classe trabalhadora".

O conceito é um dos pilares de "What Happened to Liberal Democracy?: Remaking a Politics of Shared Prosperity" (O que aconteceu com a democracia liberal? Refazendo as políticas da prosperidade compartilhada), livro que ele lançou há algumas semanas nos EUA e no Reino Unido, ainda sem tradução para o português.

Se o argumento da obra não é tão difícil, a pretensão parece imensa: Acemoglu tenta reconstruir a própria ideia de liberalismo para ser possível reconciliá-la com a democracia.

Isto é, juntar o princípio das liberdades individuais indissociáveis, base do arcabouço liberal, com o arranjo sociopolítico que privilegia decisões e convívio coletivamente produzidos, pilar democrático.

O problema, observa ele, é que o mundo atual —da inteligência artificial (IA) e das big techs, sobretudo— caminha cada vez mais na "direção contrária" a isso. "Não estamos indo para o liberalismo", argumenta à BBC News Brasil.

"Muito da enorme concentração econômica, de poder, que vemos nos EUA tem sido impulsionada pelas empresas de tecnologia que, há algum tempo, se voltaram contra o liberalismo, porque querem controlar informação —e fazer isso, seja uma empresa ou um governo, não é compatível com liberalismo", continua.

Para entender, é preciso recorrer às três vertentes liberais que Acemoglu descreve.

A "libertária", dos economistas Friedrich Hayek (1899-1992) e Milton Friedman (1912-2006), é crítica por levar a liberdade do indivíduo à sua máxima potência, desconfiando de qualquer tentativa de interferência, principalmente do Estado.

É nela que se afia, entre outros partidos e líderes mundiais, o presidente da Argentina, Javier Milei, por exemplo. "Filosoficamente, sou um anarquista de mercado", definiu-se ele em 2021, por exemplo, justificando ideias como "dinamitar" o banco central do país ou permitir trocas comerciais de órgãos humanos.

O liberalismo "contratualista", por sua vez, é herança do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), autor de um clássico do pensamento político ocidental: "Do Contrato Social", de 1762, livro de cabeceira dos artífices da Revolução Francesa.

Na análise do economista, essa vertente progressista, sustentada no conceito de "vontade geral", se perde por não construir consensos sociais pela deliberação real, baseada na comunicação entre os cidadãos, mas por "contratos hipotéticos" sobre qual deve ser a direção das sociedades legitimados pelo discurso universitário.

Vem, então, a sua proposta de liberalismo para a classe trabalhadora, que deve, antes de tudo, "entregar prosperidade compartilhada, com serviços públicos e um senso de autogoverno, de que se tem voz", explica.

Para o economista, intrigantemente, o Brasil teve um ator robusto para levar sua vertente liberal a cabo: o Partido dos Trabalhadores (PT) liderado por Lula.

Acemoglu lembra como, nos primeiros anos de mandatos petistas, nos anos 2000, ele viu o Brasil subir ao palco global por causa das suas políticas sociais que uniam, de um lado, o papel ativo do Estado e, de outro, uma perspectiva de "prosperidade compartilhada". Justamente a que ele trata no livro.

"Mas o PT ficou manchado por escândalos de corrupção", lamenta. "Não tenho dúvida de que qualquer alternativa a [Flávio] Bolsonaro seria muito melhor, mas, repito: o PT não se limpou da corrupção, assim como não produziu certa aspiração unificada para a classe trabalhadora brasileira. Esse foi o problema", prossegue.

Acemoglu, que ficou famoso por ter lançado Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza (Elsevier), em 2012, ao lado do economista James Robinson, da Universidade de Chicago (EUA), com quem compartilhou o Nobel (o outro laureado foi Simon Johnson, do MIT), conversou com a BBC News Brasil dias antes do segundo turno da eleição presidencial brasileira.

O senhor argumenta que, se há "salvação" ao liberalismo, é pela criação de um "liberalismo da classe trabalhadora". Porém, parte significativa do mundo está caminhando, eleitoralmente, na direção oposta: a um liberalismo concentrado. Como será possível construir esse novo regime? Que pacto deveria ser feito e que atores precisariam estar envolvidos? Você tem razão: a mudança está acontecendo na direção contrária, mas não tenho certeza de que seja para o liberalismo. Muito da enorme concentração econômica, de poder, que vemos nos EUA tem sido impulsionada pelas empresas de tecnologia que, há algum tempo, se voltaram contra o liberalismo, porque querem controlar informação —e fazer isso, seja uma empresa ou um governo, não é compatível com liberalismo.

As empresas de tecnologia, mais do que isso, estão contra a democracia: elas se preocupam que as vozes democráticas consigam diminuir os investimentos em IA.

Não existe, fundamentalmente, conflito entre IA e liberalismo ou entre tecnologia e liberalismo, mas é um fato que a direção que a IA está tomando, especialmente pela postura dessas grandes empresas e laboratórios, vai contra a democracia liberal. Nós precisamos mudar isso.

Como? Criando contrapesos nos EUA e em outros países. Uma mensagem importante ao Brasil é que, neste momento, cerca de seis bilhões de pessoas que vivem fora do eixo EUA, Europa e China não têm voz alguma sobre a direção que a IA vai tomar, embora as suas vidas estarão completamente transformadas pela IA em um intervalo de dez anos —no Brasil, na Turquia, na Indonésia, na Índia...

Os países em desenvolvimento devem ter voz, posição, investimento em infraestrutura. Precisamos que países como o Brasil liderem o mundo em desenvolvimento em busca dessa voz unificada. Mas isso pode não acontecer se o Brasil estiver caminhando para o colapso da sua democracia liberal.

Mas como fazer isso se essa classe trabalhadora não configura uma classe em si, no sentido tradicional, em muitos países? Na América Latina, na África, em boa parte da Ásia o que existe é um contingente de informais. Eu não acho que constitua uma classe. Em todos os lugares, a classe trabalhadora está dividida. Na verdade, parte da classe trabalhadora tradicional ainda se encontra sindicalizada nos EUA e no Reino Unido, e os movimentos sindicais ainda estão próximos à centro-esquerda. Isso parece duplamente verdade no caso do Brasil, em que o Partido dos Trabalhadores nasceu do movimento sindical.

No entanto, uma grande parte da classe trabalhadora se voltou contra a centro-esquerda, por razões culturais, e foi na direção da centro-direita ou até da direita radical, como os casos de Jair Bolsonaro e de seu filho agora.

Mas há outro fator para isso, especialmente em países em desenvolvimento: corrupção. Minhas pesquisas recentes têm mostrado que o apoio das pessoas à democracia e mesmo ao establishment político depende dos resultados que os governos democráticos entregam. Elas querem uma prosperidade compartilhada, mas também querem bons serviços públicos e um governo transparente.

A corrupção é imensamente corrosiva para o apoio que as pessoas dão à democracia. Isso é especialmente verdadeiro na América Latina e no Brasil, onde a corrupção faz as pessoas ou se desligarem completamente da política ou procurarem alternativas em outros partidos.

Esse é o problema que o PT e Lula encontram no Brasil: ficaram manchados por escândalos de corrupção e não se limparam durante esse último mandato. Se não fosse por isso, há muitas coisas nas quais o PT poderia servir como modelo representativo para essa aproximação da classe trabalhadora com a democracia liberal.

A corrupção ficou no caminho e, enquanto não for limpa, não haverá um apoio tão efetivo quanto o PT deveria ter.

Mas a classe trabalhadora brasileira nem sequer se identifica assim. O discurso dominante é o do empreendedorismo individual... Igual nos Estados Unidos. A mesma coisa.

Como promover uma mudança no liberalismo se a classe que a protagonizaria não se vê dessa forma? Isso se explica, em parte, pelo fato de que a classe trabalhadora perdeu a fé em partidos de centro-esquerda e no movimento sindical. Porque a classe trabalhadora sueca ainda se vê dessa forma, por exemplo? Porque, na Suécia, apesar de ser mais instruída e de trabalhar em setores mais avançados em tecnologia do que no Brasil, a classe trabalhadora segue confiando no seu movimento sindical.

E é aí que voltamos à questão do Brasil aqui. Não tenho dúvida de que qualquer alternativa a Bolsonaro seria muito melhor, mas, repito: o PT não se limpou da corrupção, assim como não produziu certa aspiração unificada para a classe trabalhadora brasileira. Esse foi o problema.

O que está em jogo, para o mundo, nessa eleição brasileira? Ela é, provavelmente, a eleição mais importante fora dos EUA desse ano. O Brasil é muito importante para a América Latina. Na verdade, se [a família] Bolsonaro retornar ao poder, será igual aos EUA que decidiram por um segundo mandato de Donald Trump.

O que aconteceu ali nos EUA define como eu vejo a política brasileira: quando Joe Biden conseguiu vencer Trump em 2020, uma grande vitória, muita gente à centro-esquerda interpretou aquilo como um sucesso em si mesmo, e voltou a fazer política à moda antiga. Acho até que de uma maneira mais polarizada durante o mandato do que antes dele.

O resultado foi que o eleitorado, entendendo muito bem os riscos de uma volta ao poder de Trump, resolveu escolhê-lo mesmo assim. Foi um voto de protesto contra o establishment político. No livro, o que eu defendo é que os democratas precisam rearticular a centro-esquerda para trazer a classe trabalhadora de volta. Isso não aconteceu nos EUA. É como eu também vejo a situação no Brasil.

O mandato de Jair Bolsonaro [de 2019 e 2022] foi um desastre: criminalidade, corrupção, mesmo as políticas desapareceram, as que fizeram o Brasil aparecer no cenário global. Tudo isso levou Lula de volta ao poder, em 2022.

O que ele precisava fazer? Limpar a casa e voltar a ser a liderança inspiradora que foi nos seus primeiros governos. Ele não fez isso. Lula ainda é uma alternativa melhor que o filho de Bolsonaro, mas o Brasil está perdendo a oportunidade.

Se o sentimento anti-establishment levar Bolsonaro de volta ao poder, será realmente uma notícia ruim para o país e para o mundo em desenvolvimento.

Isso é interessante: uma parte do debate econômico brasileiro sempre apontou que as transformações estruturais do Brasil se replicam, depois, no mundo. Uma certa "brasilianização" global, uma vanguarda. O senhor também percebe isso? Sim, percebo. Acontece algo parecido em outros países em desenvolvimento, porque a tensão que eles viveram, especialmente a dor da modernização e do conflito distributivo no Brasil, na Argentina, na Turquia, definiu as políticas do Ocidente industrializado.

Então os turcos também argumentam isso? Sim. A tensão que a Turquia viveu nos anos 2000 é a mesma que está sendo vivida nos EUA hoje. A solução, para todos os casos, é encontrar ideias que unam o país para além do nível de polarização. Precisamos de líderes que articulem inspirações e, como venho defendendo nos últimos tempos, precisamos de um liberalismo da classe trabalhadora que centre a política na classe trabalhadora, mas que siga fiel às aspirações e às ideias do próprio liberalismo.

Por que a prosperidade se tornou tão importante? Flávio propõe criar o "Ministério da Prosperidade", e Lula acabou de anunciar um programa que traz essa palavra para o mundo dos empreendedores. O senhor também menciona essa aspiração no livro. Ela sempre foi importante. A própria mensagem original do PT era relevante porque dizia sobre compartilhar prosperidade entre trabalhadores, em em contexto em que muitos brasileiros tinham sido deixados para trás. Os salários eram baixos e mesmo a representação política era desigual. Naquela situação não havia como existir uma democracia liberal, porque ela precisa entregar, justamente, prosperidade compartilhada: serviços públicos, um senso de autogoverno, de que se tem voz.

"Por que as nações fracassam" foi publicado há quase 15 anos. Como o senhor tem visto o funcionamento das instituições, sobretudo nos países desenvolvidos? Elas ainda possuem força em meio a um mundo em conflito e cujos países têm se inclinado mais à direita radical? Flutuações nas ideologias do eleitorado não significam fraqueza das instituições. Um país pode ir da centro-direita à centro-esquerda mantendo sua força institucional, como nós vimos em muitos casos na Europa central, por exemplo. Mas, em muitos outros, de fato, estamos diante de uma fraqueza tremenda das instituições, tanto na capacidade de funcionamento em meio à polarização, na paralisia política, por exemplo, quanto na legitimidade ou na confiança.

O Congresso, a Presidência, o próprio Judiciário dos EUA nunca tiveram em tamanho descrédito quanto agora. Tudo isso diz que as instituições não estão funcionando. Elas não estão conseguindo conter Trump, que se tornou muito corrupto, muito arbitrário, que tem tomado ações específicas para enfraquecer as instituições.

Nos países em desenvolvimento, porém, elas são fracas desde o começo. Há quatro anos, o Brasil estava discutindo se retornaria a um regime militar sob liderança de Bolsonaro. Em uma democracia plena, esse debate sequer existiria. Um golpe deveria ser a última coisa na cabeça dos líderes políticos e dos militares. Aquilo foi um sinal de fraqueza.

Meses atrás, o senhor publicou um artigo, ao lado de colegas do departamento, propondo uma "IA pró-trabalhadores". Do que se trata e como seria possível desenvolvê-la? A chave, e isso é muito importante para países como o Brasil, que ainda têm uma grande classe trabalhadora e devem confiar na combinação entre tecnologia, capital e trabalho para crescer, é que precisamos que a IA se transforme em uma ferramenta a serviço dos trabalhadores. Ela precisa aperfeiçoar conhecimento, capacidade de resolução de problemas e, mais importante, deve produzir novas tarefas. Defendo no livro que isso é possível, porque não há barreiras tecnológicas para criar uma IA pró-trabalhadores. É apenas uma questão de escolha. Nós estamos decidindo não desenvolvê-la.

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Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante

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Fonte: Folha