Os dois alunos do curso de Medicina do Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos (Imepac), em Araguari, no Triângulo Mineiro, que hostilizaram colegas após a reeleição do presidente Luis Inácio Lula da Silva, direcionaram ofensas a estudantes que vendem trufas para se manter na cidade e que são bolsistas.
"Agora quem votou no Lulinha, que está há 20 anos prometendo picanha, quem vier vender trufa [...]. Falar que as minas gostosas que estão com o Lula. Vai todo mundo se f*. Pega a p* da sua bolsa de Prouni, de Fies e divide com a p* do MST", disse um dos estudantes.
Gravações de tela das conversas às quais o g1 teve acesso mostram os áudios enviados pelos dois estudantes por volta das 21h50, no grupo da turma de Medicina. Ouça acima.
Os nomes dos envolvidos não foram divulgados para preservar a identidade das vítimas.
Em comunicado publicado nas redes sociais, o Imepac repudiou manifestações de intolerância ou discriminação por convicções políticas ou condição socioeconômica. A instituição informou que abriu um processo para apurar os fatos e avaliar as medidas cabíveis, respeitando as normas internas e o direito de defesa. Leia a nota completa no final da matéria.
Estudante denunciou ofensas por motivos políticos
Uma estudante de 21 anos, natural de Uberlândia, ingressou na instituição no início de 2026 e preferiu não se identificar. Bolsista, ela vende trufas para ajudar a se manter em Araguari. A jovem relatou que se sentiu diretamente atacada e humilhada pelos colegas.
Ela registrou um boletim de ocorrência por difamação registrado contra os responsáveis pelas mensagens na manhã de quarta-feira (28).
“Foi discriminação socioeconômica pura. Antes das eleições, muito provavelmente eu já não era vista com bons olhos, porque se eu nem cheguei a me posicionar e eles foram tão cruéis, acredito que era um posicionamento que eles já tinham”, disse a estudante.
A estudante afirmou que não havia manifestado publicamente nenhuma preferência política durante a campanha. Após o resultado do segundo turno, publicou uma foto no Instagram em que declarou o posicionamento.
Ela disse que sempre manteve uma convivência respeitosa com os colegas e que as ofensas a pegaram de surpresa.
“A única coisa que me permite estudar o curso dos meus sonhos é essa política pública de acesso à universidade”, afirmou.
A estudante relatou que figurinhas ofensivas contra eleitores do PT já circulavam no grupo antes do primeiro turno e que esse tipo de mensagem havia se tornado frequente.
Ainda segundo a estudante, após a vitória de Lula, as mensagens se tornaram mais ofensivas. Outros alunos da turma tentaram acalmar os colegas.
“Eu me senti muito humilhada, não tinha como desvincular a minha imagem, era sobre mim que eles estavam falando. Mas também sobre vários outros estudantes bolsistas que se sentiram diminuídos e desrespeitados. Foi muito triste. Em momento nenhum eu desrespeitei ninguém, sempre fui muito discreta. Chorei bastante e busquei apoio da minha família e do meu namorado”, relatou.
O g1 entrou em contato com a Polícia Civil para saber se um inquérito para apurar a suspeita de difamação foi aberto, e aguarda retorno.
A reportagem também entrou em contato com o Imepac para saber quais medidas administrativas poderão ser adotadas, se a instituição avalia a expulsão dos alunos e quais são os próximos encaminhamentos previstos, mas não havia obtido resposta até a última atualização desta matéria.
"O Centro Universitário IMEPAC repudia qualquer manifestação de intolerância ou discriminação, seja por convicções políticas ou por condição socioeconômica. A instituição reafirma seu compromisso com a liberdade de expressão, a pluralidade de ideias e o respeito as diferenças, princípios fundamentais para a convivência acadêmica e a formação ética e humanizada dos futuros profissionais.
Diante dos episódios de intolerância relatados nesta semana contra estudantes, foi instaurado um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar os fatos e adotar as medidas cabíveis, com rigorosa observância das normas regimentais e do direito de defesa.
A instituição também disponibiliza acolhimento e suporte aos estudantes atingidos, por meio de seus canais de apoio, e reforça que todos têm direito a um ambiente universitário seguro, inclusivo e livre de discriminação".
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